segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O PARQUE É UMA FORMA DE VIOLÊNCIA


Sou moradora de Boa Viagem (a uma quadra de onde o parque será construído). Sou contra a construção deste parque em Boa Viagem. Porém, diferente das centenas de debates e espaços em jornais e em manifestações de políticos, simpatizantes da área verde, moradores do bairro, meus argumentos não são relacionados à quantidade de area verde do D. Lindu. O texto vai tratar da construção do parque como uma forma de violência.

Com um terreno doado, o parque custará R$ 28 milhões dos cofres públicos. D. Lindu terá teatro, centenas de vagas para estacionamento, ciclovia, pistas para cooper e skate, quadra poliesportiva, playground, áreas para descanso e ginástica. Haverá também pavilhão para exposições, restaurante, sanitários, fraldário e central técnica.

O parque está sendo construído num bairro nobre que possui um dos maiores índices de desenvolvimento humano da cidade, ou seja, maiores rendas, maior nível educacional e maior longevidade. Em outras palavras: a maioria dos habitantes da redondeza vive (e muito) bem. Quem mora naquela área de Boa Viagem tem vários outros tipos de lazer gratuitos. Tem o calçadão para caminhar, tem a praia, e (para a maioria dos moradores) tem pelo menos um carro para ir a qualquer outra parte da cidade.

Há quem contra argumente que o parque não beneficiará somente moradores de Boa Viagem. Ok. Mas beneficiará principalmente os moradores de lá. Proponho um movimento contrário. Por que não se constrói parques em Santo Amaro, no Brejo da Guabiraba, no Alto de Santa Teresinha e mandamos os moradores de Boa Viagem irem se divertir lá?

Porque tornar uma área que já é nobre mais nobre ainda, ao invés de investir em outras regiões muito mais carentes da cidade? Este é o tipo de violência que não é visível, mas é a violência social, a violência das desigualdades de uma cidade onde uns vivem com menos de três reais por dia e outras gozam milhares. Onde uns tem seis vezes mais chances de sobreviver que os outros, onde 80% dos adolescentes um bairro estão fora da escola, enquanto que em outros bairros esta realidade corresponde a apenas 10%. E em breve, onde uns terão um belíssimo parque à disposição e outros continuarão sem nem um escorrego para brincar.

Muita gente ainda vai vestir a camisa e vai as ruas brigar pelo D. Lindu. Mais área verde. Menos área verde. Espaço cultural. Projeto ou não de Niemeier. Porém, um dia, talvez, estes mesmos cidadãos irão vestir (se já não vestiram) uma camisa contra a violência que assola a nossa cidade. Violência esta que muitos não querem enxergar, mas que é reproduzida por um modelo de sociedade (e de cidade), que nós criamos e aceitamos: o que beneficia ainda mais quem já vive bem e que exclui sócio e economicamente a grande maioria.

Obs1. O texto não tem intenção política de minar o PT perto das eleições. Conheço e reconheço os benefícios que João Paulo, em quem votei nas eleições passada, trouxe para a cidade. Porém não poderia deixar de expressar minha indignação contra o parque. Ainda mais agora que estou voltando ao Brasil e terei o parque no meu nariz.

Obs2. – Sim, amigos. Este é meu último texto escrito aqui no Reino Unido. Com dissertação sobre violência urbana e desigualdade social debaixo do braço, volto para o Brasil, próxima sexta (dia 12). Desempregada, sem carro e sem carteira de motorista, triste por deixar muitos amigos aqui, mas feliz da vida pela missão cumprida e por voltar à terra querida e aos braços das pessoas amadas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Uma bela ilha chamada CHIPRE

Depois do primeiro rascunho da dissertação, nada melhor que uma semana para relaxar. O destino: Chipre do Norte. Nunca ouviu falar? Não sabe onde é? Pois eu também não sabia muita coisa antes de vir morar no Reino Unido e fazer amigos cipriotas.

O Chipre é uma ilha de um milhão de habitantes situada no mar mediterrâneo, próximo à Turquia e à Grécia. A ilha que já pertenceu a Grã-Bretanha, hoje é dividida na parte norte, composta por cipriotas turcos e na parte sul composta por grego-cipriotas. Somente reconhecido como estado pela Turquia, a Republica Turca do Chipre do Norte possui 250 mil habitantes. E é pra lá onde eu fui.

Cheguei pela cidade de Larnaca, no sul da ilha. Apesar de brasileiros não precisarem de visto, tive dificuldades de entrar no país. Iria para a parte do Norte e como o Chipre vive numa espécie de guerra fria, os gregos não gostam quando chegamos pelo sul para cruzar as bordas e ficar apenas na parte turca. Passada a imigração, passada a borda, o restante da viagem foi somente sol, mar, passeios a castelos milenares, comidas maravilhosas (carnes de churrasco, iogurte, pães (pita bread), descanso, vinhos e amigos e amigas.

Alguns fatos sobre o Chipre: o clima é parecido com o de Recife, podendo chegar a temperaturas mais altas. As águas neste trecho do mar mediterrâneo são cristalinas e a temperatura é também parecida com o do mar em Recife. Algumas palavrinhas turcas são necessárias para sobrevivência (e para uma boa convivência). São elas: kebab (carnes), gardash (amigo), Godnaydin (Bom dia), Sag ol (obrigado). A religião predominante da parte do norte é o islamismo, mas muita gente não a segue estritamente. A moeda é a libra turca. Uma libra turca equivale a mais ou menos R$1,50. Apesar das diferenças culturais (língua, comida, religião) os cipriotas são tão receptivos e simpáticos como os brasileiros. Eita, que saudade danada deu desta terra.

E agora, estou de volta ao Reino Unido enfurnando a cara nos livros. Hoje o dia está chuvoso e o céu cinza. Fazem 15 graus. Alguém disse que era verão? Porém, não posso reclamar porque nada melhor do que um tempo desses para me concentrar e mandar ver na dissertação.

Mais fotos:
http://www.flickr.com/photos/anamariabianchi
Vídeos: Praia de Karpas - http://www.youtube.com/watch?v=hxQ4WyQN3sI
Apresentações culturais - http://www.youtube.com/watch?v=mLQ0XCCfaTM

OBS: Acabo de receber uma carta da Universidade com minhas notas da parte 1 do Mestrado (a parte 2 é a dissertação). Passei bem, com mérito e distinção. O sistema de notas daqui é assim:

49% ou menos - Reprovado
50-59% - Aprovado
60-69% - Aprovado com mérito
70 acima - Aprovado com distinção

Minhas matérias/notas foram as seguintes:

Livelihoods - 72%
(Meios de Vida Sustentáveis)

Development, Theory and Practice – 70%
Desenvolvimento, Teoria e Prática

Studying International Development – 70%
(Estudando Desenvolvimento Internacional)

Rights-Based Approach to Development - 70%
(Direito Humano para o Desenvolvimento)

Civil Society and Development - 62%
(Sociedade Civil e Desenvolvimento)


Governance and Social Policy - 60%
(Governança e Políticas Sociais)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O que hei de levar do UK

Não sou apegada à terra da rainha. Não gosto do tempo britânico, da comida nem do tipo de diversão daqui. Falta energia no ar, nas pessoas. Falta o sorriso e por vezes humildade. Mas duas coisas esta terra tem de bom. A primeira está relacionada aos estudos. Fontes e pesquisas o Reino Unido tem de sobra e por isso não poderia estar em lugar melhor para fazer um mestrado em Desenvolvimento Social.

A segunda é a diversidade multicultural que esta terra abriga. São muitas as amizades que fiz com estrangeiros neste tempo que estou fora do Brasil. São eles e elas do Chipre, da Grécia, Áustria, Etiópia, Itália, Argentina, Alemanha e Turquia. Aqui não temos nossa família. Os amigos são nossa família. É com eles que convivemos durante todo o dia, com quem estudamos, comemos, rimos, choramos e nos divertimos. São eles que fazem a vida no exterior menos cinza. E é com eles com quem aprendi ainda mais a respeitar diferentes culturas e a adorar cada um nas suas diferentes formas de pensar e de agir.

Ontem foi meu aniversário. Posso dizer que me senti muito bem ao lado destes meus amigos e amigas que preparam uma festa surpresa para mim e com quem celebrei meus 28 anos por quase 24h. É a eles e elas a quem dedico este meu post e a quem digo: estou muito feliz pela nossa amizade a qual levarei por toda minha vida.

Minhas amigas da Etiópia

Festinha surpresa

Na cozinha - festinha surpresa 2


A caminho da salsa



Salsa - Monkey Bar


Salsa




quinta-feira, 29 de maio de 2008

EUROTRIP

Depois de 16 dias....breves palavras sobre a viagem pela Europa. Fotos explicarão melhor as curtas frases.

Paris – O encontro. Julian, que já não é mais a lenda e sim foi nos buscar no aeroporto. Estadia em Champigny. Cléber, a figura da casa e as cachorras. Sol. Ponte Neuf. Linda. Muito linda. As biclicletas. Tour em Paris: O arco do Triunfo, o Louvre e a mona lisa. 26 ou 27 anos? Eu certamente, e em breve, 28. A Torrei Eifel. A catedral da Notre Dame. Arrepio. Escadas. A Sacre Coeur. Turistas. Muitos turistas. Os jantares do chef Cléber. Paris, a bela cidade. Ida a Beveau para pegar o avião. O motorista do táxi reforçando a antipatia francesa. O amanhecer. O avião. Sintomas de gripe. Nariz entupido, garganta arranhando.

Roma – As buzinas. Barulho. Vida. Giovy. O calor humano e a simpatia de Giovy, a dona do hostel. O coliseu. Beijos. O coliseu!!! A antiga cidade romana. Fontana de Trevi. Pernas pro ar, o cansaço. O vaticano à noite. O vaticano de dia. O vaticano à noite impressiona. Cafés da manhã: chocolatto o capuccino? Brigas. Choro. O anel. O trem. Roma vibra.

Firenze – Sassi nos recepciona. Caminhada pela cidade. Ponte Vecchio. Sorvete italiano. Finalmente, un gelato! Caminhadas, pizza, vinho e o trem.

Veneza – A cidade sob as águas. Chuva. Passeios no ônibus aquático. Chuva. Dor de cabeça. O choro. O companheirismo. Trem noturno. Muito pouco de Veneza.

Viena – Barbara, amiga austríaca que conheci no Reino Unido nos recepciona. City tour. Museus e mais bicicletas. O parlamento. Comida típica: salsicha. O Palácio de Versalles de Vienna: Schonbrunn. Impressionante. Viena, a terra da ópera. O Ballet ao som de Donizetti e o fim de noite. Bicicletas no fim de noite. O chá e a cerveja. O amanhecer. Trem.

Praga – leste europeu. A frieza e beleza da capital da República Tcheca. A guarda tcheca. Imobilidade e o olhar sério de um povo que sabe o que é guerra. Frieza. As pontes. As catedrais em estilo gótico. Lindas catedrais. Lindos vitrais. Bondinhos. O museu do sexo. Cintos de castidade. A queda na banheira. O hematoma. E que hematoma. Jantar: carnes de porco e de boi e sopa.

Berlim – Junto a Roma, minha cidade favorita. Primeiro mundo. Sol. É realmente o primeiro mundo. Organização, limpeza, beleza, civilidade. Resquícios de um muro que dividiu o mundo: capitalismo x comunismo. Passeio de bicicleta: 11 ou 12 euros? O portão de Brandemburgo, uma das antigas entradas de Berlim. O parlamento. Sinuca no albergue: 1x0. Check point Charlie: um dos mais famosos pontos militares e de checagem entre o leste e o oeste de Berlim durante a guerra fria. O museu do muro: histórias e incidentes, escapadas e objetos usados para fugir e passar de um lado ao outro. Sinuca: 1x1. A catedral de Berlim. Linda. A ilha dos museus. Sinuca: 1x2. Frankfurt – Aeroporto. Até setembro. Volta ao Reino Unido. Chuva.
Paris - Rio Sena

Paris - Torre Eifel

Roma - Antiga cidade romana


O Vaticano



Coliseu



Firenze


Firenze



Veneza


Áustria


Praga - A guarda Tcheca que nem pisca




Praga



Maior trecho dos resquícios do muro de Berlim

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pra não dizer que não falei das flores


É primavera na Europa.
Aqui no País de Gales, como chove muito (ai a chuva, tinha que falar dela!), as árvores ficam bem verdinhas e quando faz sol as flores aparecem. São lindas. De todas as cores e tamanhos.

Hoje fez sol e um pouco de calor para os padrões daqui: 18 graus. Por isso, caminhei até a universidade e decidi tirar fotos das flores e das árvores que estavam tão lindas.

Mando, então, estas flores abaixo para vocês, e algumas em especial para minha mama, minhas tias, pra Gigi e pra Mel, pra Simonne, pras minhas amigas (Alicilda tu adora flores, né?!) e pra todas belas (e belos) que cruzaram pelo meu caminho.

Obs. Este será meu último post antes do meu descanso de 16 dias pelas Zoropa.



Na esquina aqui do flat, num jardim alheio.




Até minha calça tem flores!!! É para reparar na calça e não nos meus braços transparentes...Também quer o que? São sete meses sem sol!!!




Flores, flores e mais flores!



No caminho para a universidade


Alguém pode me dizer que florzinha é esta? Elas mucham quando está chovendo e fecham à noite para dormir. Será camomila?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

E a vida continua...


O título é obvio. Mas foi a primeira frase que me veio à cabeça para escrever as novidades sobre minha vida no País de Gales. Hoje o formato do texto será diferente. Parágrafos breves, sem conexão um com o outro. Algumas simples palavras dos últimos acontecimentos por aqui.

- O tempo continua louco (hahaha. Coisa de britânico falar do tempo). E assim será. Ontem fez calor. Onze graus. Mas a poucos dias atrás estava chovendo granizo. E hoje não faz sol nem chuva. Vai entender o clima da terra da rainha.

- Estou na reta final dos meus três últimos trabalhos acadêmicos. Depois deles, tese de mestrado para ser entregue em setembro. Mas antes da tese e depois dos trabalhos, uma viagem pela Europa. Dona Maria Preta e Sr. Mulato visitarão Roma, Veneza, Florença, Viena, Praga e Berlim.

- A vida cultural está quase em dia. Semana passada, fui ao show (de bola) dos cubanos Buena Vista Social Club na capital do País de Gales, Cardiff. Os caras são muito bons. Fiquei encantada com os velhinhos. Alguns super animados e dançando o tempo todo (Javier Zalba no saxofone) e outros que mal podiam andar (Orlando “Cachaito”do baixo).

Confiram os vídeos
http://www.youtube.com/watch?v=MxDRDjjyBkM&feature=related ; http://www.youtube.com/watch?v=p0QBTWewGwQ&feature=related ; http://www.youtube.com/watch?v=0YT7LO-y3t8&feature=related ;



E esta é minha foto mais recente. Ontem no aniversário do meu amigo Ozgur (do Chipre). Junto a ele Barbara (Áustria), Vicky (Grécia) e eu.

domingo, 6 de abril de 2008

Coelhinho da páscoa... que trazes???



A páscoa aqui foi morna. Nao comi ovinhos de chocolate, nao fiz ceia. Aqui nao há a febre de ovos de chocolate como no Brasil. Encontrei poucos no supermercado. Pequenos e caros. No geral, não senti um clima de páscoa no ar. Porém, a páscoa levou muitas coelhinhas às ruas (como meus leitores atentos já haviam reparado no detalhe ao lado direito da foto).

Na verdade, nao vim para falar de páscoa. Está um pouco tarde, né? Hoje vou escrever um pouco sobre a diversão dos britânicos. Como muitos de vocês já sabem, a principal delas é beber. Alguns bebem muito. Outros bebem exageradamente. De madrugada pelas ruas é comum ver meninos vomitando e meninas LITERALMENTE caindo. Em cima dos saltos, com suas saias muito, muito curtas, elas cambaleiam, cambaleiam e caem. A primeira sensação é de choque. Depois de ver as cenas repetidamente é de costume.

Há um ditado local que diz: “go drunk or go home” (algo do tipo, embriague-se ou volte pra casa!). E é exatamente o que eles e elas fazem aqui. E não apenas à noite ou de madrugada. Nos pubs também tem gente bebendo às cinco da tarde de uma segunda ou terça feira. Bem, alguns leitores podem estar perguntando: mas qual a novidade? Jovens do mundo inteiro bebem. É verdade. Mas aqui há alguns fatos exacerbados pelo problema.

Os dois primeiros são comprovados através de pesquisas*. O terceiro vem da minha própria observação. O primeiro está relacionado ao índice de gravidez precoce do Reino Unido, que é um dos mais altos da Europa. O segundo é sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis, cujos índices também são altos se comparados a outros países europeus. Ou seja, a galerinha aqui bebe, bebe, bebe e bebe, e no fim (ou no começo) da noite não se protege. Não é raro ver ‘casais’ em relações íntimas nas boates ou nas ruas. Ai que fria!

A terceira observação é um estranhamento cultural. Durante o dia, as pessoas mal se olham e se tocam. É cada um com seu mini rádio de ouvido, cabeça pra baixo e mãos no bolso. Mas à noite eles e elas estão a todo vapor de entrosamento. Coisa estranha. Bem, pelo menos agora a gente sabe algumas das coisas que os coelhinhos e coelhinhas estão trazendo e levando para casa e para suas próprias vidas antes, durante e depois da páscoa.

* Informações em inglês:
http://hebw.cf.ac.uk/healthyliving/chapter4.html
http://www.eurosurveillance.org/em/v03n06/0306-223.asp